domingo, 9 de outubro de 2016

cometa halley

vou sozinho comprar as rosas na floricultura da esquina, como em um romance da virginia woolf.
esqueço o teu nome e choro, mas o conforto de meus lábios me lembra o gosto amargo de teu suor que se impregnou em minha língua.
vomito,
compro flores mortas
e te deixo como um cão abandonado
que não tem forças nem para gritar o próprio nome.
então respiro, aliviado.

sábado, 8 de outubro de 2016

mal-estar número 4

acordo nesta manhã quente e escura para ouvir cícero cantando conversa de botas batidas, que toca nos alto falantes de meu computador. por incrível que pareça, ficou tudo mais melancólico do que já é. hoje irei almoçar cedo, assistir filmes independentes e deitar em posição fetal enquanto escuto o eco de meu estômago se contorcendo enquanto tento dormir. eu sou muito maior do que a tristeza que se encontra em meus pulmões, mas ela me sufoca todas as vezes que tento respirar. o livro de freud que está em minha cabeceira nem chega perto de explicar isso. é um sofrimento secular, mas que não se aplica a mim.
eu sou um constante mal-estar indizível.

sábado, 14 de dezembro de 2013

É porque eu sou rio, sou mar, sou a gota d’água, o fundo do poço que não tem fim. Eu sou profundo e raso ao mesmo tempo e me encarno minimamente no cais do porto da escuridão infinita. Se eu mergulho, não volto e morro afogado porque sou a incerteza em corpo de (quase) gente. Se eu escorrego na poça rasa, caio e não me levanto mais, porque eu sou o cansaço personificado em corpo de animal (quase) racional. Eu sou tão particularmente complexo quanto um origami e estupidamente transparente como uma cantiga de roda. Eu sou o extremo de dois lados completamente opostos e me faço de louco quando minha lucidez se encontra no mais perfeito ápice. Eu não me entendo e não compreendo o que o meu nome tem a ver com a minha inteligência abatida pelo sol escaldante. Eu me olho no espelho às 6:37 da manhã e me enfio em minhas olheiras me perguntando qual o preço da escuridão. E eu grito que sou claro como o dia e que meu sol tem cheiro de solidão. E eu digo que minha lua se apagou e não quis se sobrepor mais a minha saudade. E eu brinquei e solucei e corri aos quatro cantos dessa cidade-de-meu-deus voando e me lançando aos ares de toda a minha volúpia, me embriagando com minha felicidade, alagando as melodias de minha agonia. E as flores que já estavam mortas e jogadas em minha calçada se desfizeram em pó e me enxeram até a boca com toda sua beleza e saudade. Me encarno nos olhos de meu próprio espírito e busco a liberdade que estava engarrafada e era servida aos montes como um vinho refinado. Meu encarcere lento e repentino correu e se escondeu para nunca mais ser visto em lugar nenhum enquanto eu chorava de alegria, tentando apanhar minha liberdade como um caçador de borboletas busca sua presa bela e única. Porque a liberdade é só e dá prazer a quem a possui, mas matando aos poucos quem a busca. E eu, depois de tempos a encontrei e me livrei de minha sina horripilante e ri como se nunca mais existisse o riso e te ouvi chorando porque o peso de suas lágrimas me encheu de alegria. E assim continuou o dia, a noite, a tarde, a vida. Porque se eu rio… tu mares.